Star Wars – A Mitologia

30/03/2005 | Categoria: Outros textos

Mitos, religião e filosofia oriental: caldeirão pop de influência está na base da receita de “Guerra nas Estrelas”

Por: Rodrigo Carreiro

Sabe o que acontece quando você pega a mitologia grega, tempera com filosofia oriental e religião ocidental e transporta para uma galária muito, muito distante? Resposta: a série cinematográfica “Star Wars”. Não, não pense que isso é invenção de sociólogos que resolveram enxergar na saga intergalática algum saber erudito. Basta conferir as palavras do criador das trilogias, George Lucas, para ter certeza de que as semelhanças entre as vidas de Anakin/Luke Skywalker e o maior e mais importante dos arquétipos do inconsciente coletivo arquétipo (a ‘jornada do herói’) não são mera coincidência:

”Existem o bem e o mal, e no meio a jornada do herói. Há apenas 32 ações dramáticas na história, e todos fazem variações em torno desses pontos de partida. A mitologia grega pega essas 32 tramas e as coloca em um contexto mais estruturado, especialmente quando lida com a parte heróica, aquela com a qual eu trabalho”. O raciocínio de Lucas não é nenhum segredo. Ele já o desenvolveu em dezenas de entrevistas. O produtor, diretor e roteirista da saga não faz mistério e confessa que sua maior intenção, desde o primeiro filme, em 1977, era mesmo transportar os mitos da humanidade para um futuro incerto.

Na realidade, George Lucas começou a escrever o roteiro de Star Wars em fevereiro de 1972. O cineasta era então um estudante de cinema que tinha obsessão por ficção científica e seriados de TV dos anos 1930. Na época, ele tinha acabado de ler o livro “Herói das Mil Faces”, de Joseph Campbell. O romance, escrito em 1949, é resultado de uma pesquisa extensa em que Campbell, um discípulo ferrenho de Carl Jung, mostra as incríveis semelhanças entre mitos de diversas civilizações, identificando em todos eles uma narrativa igual – ‘a jornada do herói’. Fascinado com o assunto, George não perdeu tempo: uniu as duas paixões e começou a criar o universo que todos conhecemos.

A explicação para o imenso poder de sedução de Star Wars vem exatamente da mitologia. O grande mérito de George Lucas está na atualização da maneira de transmitir os mitos. A diferença de George Lucas para o legendário Homero, portanto, é cronológica; o diretor da saga espacial utilizou o veículo de comunicação de massa mais poderoso de nossa época — o cinema — para transmitir o legado universal e antiquíssimo dos mitos para uma geração que, na imensa maioria, nem sabe o que significam os arquétipos. Relembrando, então: arquétipos são idéias e estruturas psicológicas que compõem o inconsciente coletivo; e esse conceito, criado por Jung, dá conta de uma memória compartilhada por todos os indivíduos, de qualquer época e local da história da humanidade.

Na série, o poder superior está personificado no conceito da Força, uma metáfora consciente sugerida por Lucas para um Deus. O cineasta buscou inspiração para essa idéia nos livros do maluco-beleza Carlos Castañeda, que fala de uma “força vital”.

A jornada do herói imaginada por George também sofreu muitas modificações desde o princípio. A história foi crescendo descontroladamente e virou uma colcha de retalhos, que reunia pedaços de várias histórias mitológicas, contos da Bíblia e episódios da História mundial. O protagonista dos primeiros escritos, Mace Windu, sequer foi citado na trilogia inicial, composta pelos três filmes surgidos entre 1977 e 1983. O cavaleiro Jedi Obi-Wan Kenobi, (inspirado no Don Juan de Castañeda, que aparece no livro “A Erva do Diabo”), passou de coadjuvante a protagonista. Depois, foi divido em dois e seu lado mal, Darth Vader, ganhou um filho, Luke Skywalker (uma inspiração bíblica).

Numa análise rápida da série, é possível encontrar muitas referências às fontes originais de George Lucas. A ordem dos cavaleiros Jedi, por exemplo, é um híbrido dos samurai do Japão e dos cavaleiros templários da Europa medieval, com pitadas dos monge budistas tibetanos. A máscara negra de Darth Vader vem da mistura do teatro kabuki japonês com os trajes dos médicos que tratavam a Peste Negra na Europa do século XII.

Já o enredo da saga intergalática tem inúmeras influências da mitologia grega. No final do filme de 1983, “O Retorno de Jedi”, por exemplo, Luke Skywalker mata o próprio pai, Darth Vader; Zeus fez a mesma coisa com Crono, o deus que lhe havia gerado. Luke, aliás, tem uma irmã gêmea e teve que ser criado às escondidas por parentes – assim como o deus grego Apolo, filho de Zeus. Já o nascimento de Anakin Skywalker, que depois se renderia ao mal e adotaria a máscara negra de Vader, busca inspiração em Jesus Cristo, cuja mãe também era virgem. Édipo (mito grego) e Jonas (personagem bíblico) também aparecem disfarçados nos filmes da série. Onde? Que tal ir direto à fonte original e descobrir?

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