Tesouros escondidos

04/10/2004 | Categoria: Outros textos

Cinemateca do Instituto Lula Cardoso Ayres guarda raridades internacionais

Por: Rodrigo Carreiro

A casa é escondida. Fica em uma rua sem calçamento, na cidade de Jaboatão dos Guararapes, a pouco mais de 20 km do centro do Recife. Chegar lá não é difícil, mas exige um certo esforço; quando chove, a rua de barro enche de buracos enlameados que não fariam feio em um rally. Além disso, apenas uma placa no muro, parcialmente encoberta por galhos de árvore, indica que ali existe um instituto cultural. Funcionando de forma precária, a partir do esforço estóico e solitário de um engenheiro aposentado, existe uma cinemateca que guarda um verdadeiro tesouro de celulóide. Um tesouro ameaçado de extinção.

A cinemateca do Instituto Cultural Lula Cardoso Ayres reúne, em condições precárias de preservação, preciosidades que fazem inveja a muitos museus cinematográficos renomados no mundo inteiro. A coleção de três mil filmes do período do cinema mudo (1893-1927) e do cinema clássico brasileiro (1930-1960) possui algumas raridades que nem mesmo o proprietário, Lula Cardoso Ayres Filho, sabe avaliar. “Minhas coleções de filmes de Buster Keaton, Charles Chaplin e Max Linder são respeitadas no mundo inteiro, mas não sei dizer quais os títulos mais raros”, explica, com a humildade de quem percorre, em todos os continentes e há mais de 30 anos, lojas especializadas, cinematecas e coleções particulares de pesquisadores de cinema mudo apenas para ampliar a própria coleção, sem qualquer tipo de objetivo financeiro.

Uma consulta ao mais completo banco de dados online existente sobre filmes do cinema mudo, o Silent Era (EUA), dá uma boa idéia do tesouro que o colecionador guarda em um complexo de três salas, sob a vigilância pouco profissional de quatro ventiladores e um aparelho de ar condicionado. O instituto possui versões integrais, por exemplo, de três dos curtas-metragens dirigidos por Buster Keaton, entre 1920 e 1922, que o Silent Era lista como filmes preservados de forma incompleta, faltando trechos e fragmentos da narrativa. “Convict 13” e “The Frozen North” estão preservados em bitola Super 8, enquanto “Day Dream” existe em 16mm. As versões integrais desses títulos são oficialmente consideradas desaparecidas, mas existem em Pernambuco, à espera de descoberta oficial.

Na verdade, não existe registro de qualquer órgão de preservação cinematográfica no mundo que possua a coleção completa de todos os trabalhos dirigidos por Buster Keaton. O Instituto, porém, possui todo esse material. Tem, também, 75 dos 81 filmes estrelados por Charles Chaplin, incluindo três filmes (“Cruel Cruel Love”, “His Favorite Pastime” e “A Busy Day”) que eram considerados desaparecidos até 1970 – e dos quais só se conhece uma única cópia preservada, nos EUA. No que se refere ao cômico francês Max Linder, a situação é ainda mais exótica: o Instituto guarda mais de 40 filmes do diretor, em quatro formatos (8mm, Super 8, 16mm e 9,5mm). O conjunto foi avaliado e considerado pela Cinemateca de Paris, em 1998, como a mais completa coleção de Max Linder fora de território francês.

Apesar desses dados, não é na lista dos filmes dos pioneiros internacionais que estão os títulos mais raros. O conjunto de trabalhos nacionais do período compreendido entre 1930 e 1960 ganha com folga essa primazia. Um levantamento realizado em 1995 pelo pesquisador Francisco Moreira, ex-curador de Preservação da Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e atual restaurador da Labo Cine, identificou no Instituto Lula Cardoso Ayres mais de 30 títulos brasileiros que eram considerados oficialmente desaparecidos pela comunidade de instituições brasileiras que lidam com preservação de filmes antigos.

Entre os títulos, há obras como o pioneiro “O Caçula do Barulho” (1949), um encontro de Oscarito com Grande Otelo; “Também Somos Irmãos” (1949), primeiro longa-metragem a abordar o problema do racismo, com Grande Otelo e Ruth de Souza; “E o Mundo se Diverte”, (1948), uma das primeiras chanchadas brasileiras, do diretor Watson Macedo; “Sina de Aventureiro” (1958), faroeste que foi o primeiro trabalho de José Mojica Marins, antes de virar Zé do Caixão; e “Jerry e a Grande Parada” (1967), um dos quatro longas protagonizados pelo cantor Jerry Adriani, que nem o próprio Adriani sabiam terem sido preservados – ele esteve no Instituto no final de 2003 e viu o filme, emocionado.

Mais incrível do que a coleção em si, entretanto, é a falta de interesse das instituições que tentam preservar as obras. Basta dizer que, embora a Cinemateca do MAM tenha identificado na lista de filmes do Instituto Lula Cardoso Ayres, em 1995, todos esses títulos dados como perdidos, ninguém do órgão – ou de qualquer outro ligado à arte da preservação do celulóide – jamais fez cópias de nenhum desses filmes. Esse verdadeiro tesouro do cinema nacional de antigamente continua guardado em condições inadequadas de preservação. Sim, porque o Instituto Lula Cardoso Ayres nunca teve nenhum tipo de patrocínio, e sobrevive apenas graças à tenacidade do seu criador.

A instituição, em si, é bem mais nova do que a coleção de Lula Cardoso Ayres Filho, iniciada em 1970, com um singelo rolo de Super 8 de um filme dos Três Patetas. O Instituto foi montado em 1991, com o objetivo principal de organizar e preservar o acervo de obras produzidas pelo pai de Lula, um pintor, fotógrafo e designer muito famoso em Pernambuco. A cinemateca permanece até hoje como um apêndice do museu, e é fruto da iniciativa pessoal do engenheiro aposentado. Ele construiu a casa onde fica localizado o Instituto (na rua Hermínio Alves Queiroz, 1416, em Piedade) em 1991, com o dinheiro do FGTS. Reservou três salas para guardar os filmes de sua coleção particular, e mais uma para montar uma pequena sala de projeção, com 45 cadeiras. O objetivo de Lula era, desde o início, disponibilizar o valioso acervo de filmes para o público. De graça.

Desde dezembro de 1993, a instituição organiza sessões gratuitas todo sábado à tarde, religiosamente. Estudantes e intelectuais do Recife formam o pequeno e fiel público que freqüenta o cinema, para assistir às verdadeiras celebrações de filmes antigos promovidas por Lula. Para ele, ela são quase um ritual. “Desde os cinco anos, quando fiquei doente e passei dois anos sem andar, meu pai chamava os amigos e fazia sessões de cinema na minha casa. Eu esperava a semana inteira pelo sábado”, relembra. Às vezes, quando ele reprisa clássicos do expressionismo alemão, como “O Gabinete do Dr. Caligari”, a salinha fica lotada. Outras vezes, aparecem apenas quatro ou cinco curiosos para ver curtas-metragens franceses desconhecidos. Não importa: Lula está sempre atrás do projetor.

Todo o funcionamento da instituição é custeado pelo próprio engenheiro aposentado. Coisas de alguém que passou dois anos na Inglaterra, entre 1980 e 1982, fazendo uma única refeição por dia, para economizar dinheiro a fim de comprar mais filmes. A ajuda oficial nunca chegou. Os projetos de patrocínio que tentou aprovar através das leis de incentivo à cultura também nunca foram aprovados. “A verdade é que a restauração de filmes antigos simplesmente não é uma prioridade no Brasil”, resigna-se Lula. Para impedir que sua coleção se deteriore por inteiro, ele se entrega diariamente a uma tarefa quixotesca: revisar toda a coleção, encontrar os filmes cujo processo de desgaste já avançou demais e limpar cada rolo. O acervo de 3 mil filmes é revisado a cada dois meses. Lula gasta oito horas diárias, de flanela na mão, passando cuidadosamente uma substância química chamada Percloro Etileno em toda a extensão das películas que ameaçam estragar.

A preservação dos filmes, apesar desse cuidado, está permanentemente sob risco. Acontece que a sede da instituição fica a 500 metros do mar, em uma cidade conhecida pelo alto índice de umidade (superior a 80%) e pelas temperaturas acima dos 30ºC. Por isso, qualquer pessoa que entra nas salas de armazenamento dos filmes vai sentir, imediatamente, um forte cheiro de vinagre. É o odor característico da película que começa a estragar, e um aliado do engenheiro aposentado: pelo cheiro, Lula identifica quais são os filmes que precisam de cuidados imediatos e parte para a limpeza.

Claro que isso não é suficiente. Como não são guardados nas condições adequadas de preservação – precisariam estar em salas fechadas com umidade abaixo de 50% e temperatura menor do que 20ºC –, os filmes costumam “avinagrar” a cada dois meses. Sozinho, Lula não consegue limpar todos eles, nem mesmo dedicando oito horas diárias à tarefa. O resultado é que, todo ano, ele perde irremediavelmente de 30 a 40 filmes da coleção. “A questão é escolher quais os que eu posso perder, e comprar novamente depois, e quais os que preciso manter limpos a qualquer custo”, revela. É um tesouro cinematográfico que se perde a cada dia, a cada mês, a cada ano.

– Instituto Lula Cardoso Ayres
Rua Hermínio Alves Queiroz, 1416 – Piedade
Jaboatão dos Guararapes – Pernambuco
Telefone/fax: (81) 3341.1932

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