Todos os filmes do presidente

06/02/2009 | Categoria: Outros textos

Superprodução sobre a história de Lula preenche lacuna nacional sobre longas dedicados a chefiar a nação

Por: Rodrigo Carreiro

De quantos filmes que retratam a trajetória de um presidente brasileiro, ou que tragam um ocupante do cargo político máximo da nação como personagem importante, você consegue lembrar? Não adianta puxar muito pela memória. Existem poucos trabalhos audiovisuais com essas características no Brasil, e nenhum deles é um longa-metragem de ficção – temos alguns documentários e até minisséries de televisão, mas não filmes feitos para a tela grande. Neste departamento, nosso primeiro título do gênero será mesmo a superprodução “Lula – O Filho do Brasil”, que o diretor Fábio Barreto filma em Garanhuns (PE) e São Bernardo do Campo (SP).

No entanto, se o leitor trocar de nação na hora de fazer a pergunta – o Brasil pelos Estados Unidos – vai obter uma resposta muito diferente. O maior banco de dados sobre cinema disponível no mundo, o Internet Movie Database (IMDb), registra nada menos que 654 filmes que possuem um presidente norte-americano como personagem importante. Trata-se de um fenômeno cultural que independe da época. Embora ficções protagonizadas por presidentes dos EUA tenham se tornadas comuns em todos os gêneros, de comédias a thrillers de suspense que se passam dentro da Casa Branca, a figura do dirigente máximo da nação sempre esteve rondando o imaginário de Hollywood. Basta lembrar que o primeiro grande clássico criado nos EUA, “O Nascimento de uma Nação” (1915), de D.W. Griffith, traz o ator Joseph Henabery interpretando Abraham Lincoln.

O 16º presidente dos Estados Unidos, uma das figuras históricas mais veneradas daquele país, também é o mandatário da nação que mais apareceu na tela grande. O IMDb registra nada menos que 200 trabalhos (entre filmes de ficção, episódios de séries de TV e documentários) que contam com a presença de Lincoln, sendo 47 deles como protagonista. A lista vai do já citado filme de Griffith até a cinebiografia “Lincoln”, que está em pré-produção e tem estréia marcada para 2010, com ninguém menos que Steven Spielberg na direção. Curiosamente, o ator que interpretará o ícone da política norte-americana é o irlandês Liam Neeson. Achou estranho? Pois saiba que outros atores com perfil pouco comum já viveram Lincoln na ficção, incluindo o ex-astro de luta livre Hulk Hogan (que fez um telefilme em 2006) e o multipremiado Tom Hanks (num episódio de série em 2003), cuja semelhança física com o ex-presidente é nenhuma.

Outro ex-presidente norte-americano com generoso espaço das telas de cinema é o polêmico Richard Nixon, que ocupou a Casa Branca entre 1968 e 1974, tendo sido o primeiro presidente do país a renunciar, após o escândalo político conhecido como Watergate. O escândalo em si, aliás, rendeu pelo menos três longas-metragens de grande fama, em que o político aparece com destaque: “Todos os Homens do Presidente” (1976), de Alan J. Pakula; “Nixon”(1995), de Oliver Stone; e “Frost/Nixon” (2008), de Ron Howard. O primeiro reconstitui minuciosamente a investigação jornalística que resultou na renúncia; o segundo documenta toda a trajetória política e pessoal do presidente, com destaque óbvio para sua angústia durante o caso; e o último salta três anos no tempo para mostrar os bastidores da primeira entrevista concedida pelo político após a renúncia, que resultou em um pedido público de desculpas à nação.

Cinebiografias de presidentes, como a de Lula, são tão populares nos EUA que constituem uma espécie de subgênero essencialmente norte-americano. Praticamente todos os ocupantes do cargo durante o século XX já tiveram vida pessoal e profissional vasculhada por cineastas, em dramas de variados graus de fidelidade e importância histórica. Harry Truman, Franklin Roosevelt e Ronald Reagan, apenas para citar alguns, foram objeto de cinebiografias feitas diretamente para a TV. O diretor Oliver Stone, sozinho, já dirigiu três longas-metragens com essa característica, todos polêmicos e de grande repercussão: “JFK – A Pergunta que Não Quer Calar” (1991), sobre o misterioso assassinato de John Kennedy; o já citado “Nixon” (1995), que humaniza a figura soturna com Anthony Hopkins no papel principal; e “W” (2008), que documenta a transformação de George W. Bush, de executivo cheio de problemas com bebida a presidente odiado pelo mundo inteiro.

Nos filmes de ficção, a figura do presidente dos Estados Unidos foi poupada durante algumas décadas, o que de certa forma contribuiu para uma relativa mitificação dos ocupantes do cargo. A partir da queda do Código Hayes (documento assinado por todos os grandes estúdios que estabelecia uma censura interna dentro da indústria cinematográfica), no princípio dos anos 1960, um processo de humanização passou a vigorar, de forma que o presidente foi paulatinamente sendo transformado em personagem de ficções inscritas em todos os gêneros. “Dave – Presidente por um Dia” (1993), por exemplo, é uma comédia sobre um sósia do político que precisa assumir de verdade o Salão Oval. “Meu Querido Presidente” (1995) traz Michael Douglas como um político viúvo que se apaixona por uma lobista. Nos thrillers “Poder Absoluto” e “Assassinato na Casa Branca”, o presidente norte-americano chega a ser suspeito de ter cometido homicídios dentro da residência oficial do Governo Federal dos EUA.

Em longas ainda mais imaginativos, o presidente norte-americano deixa de lado o papel de homem comum para assumir o posto de herói de ação. Na ficção científica “Independence Day” (1994), de Roland Emmerich, Bill Pullman literalmente salva o planeta da destruição pelas mãos de alienígenas, ao pilotar pessoalmente um pequeno avião e introduzir um vírus de computador na nave-mãe usada pelos ETs para chegar à Terra. De forma mais modesta, Harrison Ford banca o exército-de-um-homem-só, em “Air Force One” (1997), ao detonar uma quadrilha de terroristas do Cazaquistão que seqüestra o avião onde ele está e ameaça matar a mulher e a filha dele, caso não liberte um preso político. No recente “Ponto de Vista” (1997), a figura do sósia do presidente reaparece para salvá-lo de um atentado. Os dois papéis são interpretados por William Hurt.

No que se refere à cor da pele, inclusive, Hollywood se antecipou à vida real em pelo menos três décadas. O primeiro longa-metragem de ficção e colocar um negro no Salão Oval data de 1972: “O Presidente Negro” imaginava um cenário em que o presidente do Senado (James Earl Jones) tinha que assumir o cargo, depois que o presidente eleito, o vice e o presidente do Congresso morriam em um desastre. Os comediantes Chris Rock e Richard Pryor também interpretaram o mandatário da nação, em comédias que datam das décadas de 1990 e 1980, respectivamente. E não se pode esquecer de Morgan Freeman, que fez o papel do chefe executivo do país no filme-desastre “Impacto Profundo” (1997). Falar em presidente negro, aliás, é falar no seriado “24 Horas”, que trouxe o ator Dennis Haysbert no papel. O ator fez três temporadas e saiu de cena, substituído no cargo pelo irmão (D.B. Woodside). Outra série de TV importante a trazer um presidente negro é “The West Wing”.

Enquanto isso, no Brasil, a lista reduzida de trabalhos audiovisuais que põem o chefe da nação como um personagem importante é encabeçada justamente por uma minissérie. “JK” refez, durante 47 capítulos exibidos entre janeiro e março de 2006, toda a trajetória pessoal de Juscelino Kubitschek, interpretado no programa pelos atores Wagner Moura e José Wilker. Outra minissérie, “Agosto” (1993) reconstitui os últimos dias do governo de Getúlio Vargas, em 1954, uma época caótica que culminou com o suicídio do político. O período de Getúlio no poder também foi tema de um documentário, “Revolução de 1930”, feito exatos cinqüenta anos depois, por Sylvio Back. A lista de documentários sobre presidentes também inclui “Os Anos JK” (1980) e “Jango” (1984), ambos dirigidos por Silvio Tendler, e “Entreatos” (2004), de João Moreira Salles, este último documentando os bastidores da campanha que acabou com a eleição de Lula, em 2002. O filme de Fábio Barreto promete fechar este ciclo.

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