Trapalhões, Os

24/09/2005 | Categoria: Outros textos

Pacote com dez filmes dos Trapalhões é desigual, mas possui pérolas do humor infanto-juvenil dos anos 1970

Por: Rodrigo Carreiro

Didi, Dedé, Mussum e Zacarias. Eles andam meio esquecidos, mas qualquer brasileiro de 10 a 60 anos é capaz de se lembrar deles instantaneamente. Os mais velhos, porque já foram obrigados a passar horas no cinema ou em frente à TV, acompanhando os filhos. Os mais novos, porque ainda podem ver a figura de Renato Aragão na telinha. Já a geração que está na faixa dos 30 anos viveu, na infância, o apogeu do quarteto Os Trapalhões. Essa turma não precisa esperar por reprises na TV para conferir parte das obras do grupo, pois existe um pacote de doze discos digitais com filmes do grupo, à disposição em lojas, locadoras e bancas de revista.

Os filmes são desiguais: há, por exemplo, o horroroso “Os Heróis Trapalhões” (1988), com a participação de Angélica e do grupo adolescente Dominó. Não é preciso ser assistir a um longa desse tipo para perceber que a qualidade do longa não é lá muito caprichada. Por outro lado, existem obras-primas da comédia ingênua, como o excelente “Os Saltimbancos Trapalhões” (1981), a produção mais cara do quarteto, que celebra o mundo nostálgico do circo e tem cenas filmadas em Hollywood, além de uma trilha sonora inesquecível, assinada por ninguém menos que Chico Buarque.

Filmes dos Trapalhões significam, para o grosso do público de DVDs, uma grande polêmica. Logo em seguida aos primeiros lançamentos de longas do grupo, os fóruns sobre o formato digital na Internet inauguraram a discussão. Muitos cinéfilos reclamam da qualidade técnica rudimentar ou da pobreza dos roteiros dos filmes. Existem aqueles que exaltam os Trapalhões como uma prova viva de uma suposta infância saudável que as crianças da década de 70 tiveram. Muita gente também acha que os filmes são ruins, mas acredita que a aura de nostalgia que os revestem vale o investimento.

Prevendo a polêmica, a Som Livre deu um jeito de tentar agradar a gregos e troianos. Para os fanáticos (e exigentes) amantes das qualidades técnicas do DVD, a empresa remasterizou as imagens e remixou o som de dez filmes para o formato Dolby Digital 5.1, que contém cinco canais de áudio. Os longas também vêm acompanhados de pequenos documentários, que duram entre 5 e 8 minutos e são, na verdade, pequenos resumos das obras intercalados com depoimentos atuais de Renato Aragão. Aliás, é impossível não sentir uma ponta de tristeza ao ver o semblante tristonho do mais amado dos Trapalhões.

As crianças e aspirantes a cantores de banheiro ganham um presente extra: várias músicas de cada filme vêm gravadas à parte, em videoclipes editados no modo karaokê, com ou sem a voz dos cantores, para permitir o acompanhamento ao vivo dos que tiverem o equipamento apropriado. Os discos ainda possuem reproduções das capas originais e os menus (animados, embora de forma bem precária, diga-se) são inspirados justamente nessas ilustrações.

As exceções do pacote são duas: o documentário “O Mundo Mágico dos Trapalhões” (1981) e o maior sucesso do grupo, “O Trapalhão nas Minas do Rei Salomão” (1975). Esses dois filmes foram lançados em bancas de revista, em uma coleção da Editora Abril chamada Flashback. Os discos trazem entrevistas de Renato Aragão (média de 30 minutos cada) como extra. “Os Saltimbancos Trapalhões” também saiu nessa coleção, em edição que inclui também uma longa entrevista do líder do grupo.

Com tantos títulos de qualidade diversa colocados no mercado, a escolha pode ficar difícil para o consumidor. Uma boa dica é dar uma olhada nas informações técnicas, contidas na contracapa dos DVDs, e descobrir quem são os convidados especiais de cada filme. “O Trapalhão na Arca de Noé”, por exemplo, conta com Xuxa e o edificante Sergio Mallandro, o que dispensa comentários.

De qualquer forma, nem esse detalhe é garantia de bons filmes. “Os Trapalhões na Guerra dos Planetas”, que não tem convidados, inaugurou uma época de filmes feitos às pressas, sem roteiro e com equipamento de TV, e isso prejudica muito o resultado final. As sugestões ficam mesmo para os três lançamentos feitos pela Abril. “O Trapalhão nas Minas do Rei Salomão” pode ser uma escolha polâmica, pois não conta com Zacarias (que ainda não estava no grupo).

Aliás, não é um erro grave confundir a trajetória dos Trapalhões com a carreira do criador do grupo. Renato Aragão, ou Didi, um nordestino atrapalhado e medroso, já era um comediante de sucesso no Ceará quando chegou ao Rio de Janeiro, em 1963, disposto a aprender mais sobre TV. Ele entrou na Rede Tupi rapidamente e passou a estrelar o programa Adoráveis Trapalhões em 1966. Dedé Santana, o galã do grupo, juntou-se a ele em seguida. Em 1970, foi a vez do sambista Antônio Carlos Gomes, o Mussum, entrar no grupo. Mauro Gonçalves, ou Zacarias, completou o quarteto em 1973. A decadência veio na década de 1990. A morte de Zacarias e Mussum, respectivamente em 1990 e 1994, decretou o fim do grupo.

» Filmes:
Pela Som Livre:
– Os Trapalhões na Guerra dos Planetas (1978)
– O Cinderelo Trapalhão (1979)
– Os Saltimbancos Trapalhões (1981)
– Os Vagabundos Trapalhões (1982)
– Os Trapalhões na Serra Pelada (1982)
– O Cangaceiro Trapalhão (1983)
– O Trapalhão na Arca de Noé (1983)
– Os Trapalhões e o Mágico de Oroz (1984)
– Os Heróis Trapalhões (1985)
– A Princesa Xuxa e Os Trapalhões (1989)

Pela Editora Abril:
– O Trapalhão nas Minas do Rei Salomão (1975)
– O Mundo Mágico dos Trapalhões (1981)
– Os Saltimbancos Trapalhões (1981)

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