Viagem sentimental

19/11/2004 | Categoria: Outros textos

Cosac Naify lança no Brasil transcrição luxuosa de documentário antológico de Scorsese

Por: Rodrigo Carreiro

No início de 1994, o cineasta norte-americano Martin Scorsese recebeu uma proposta inusitada do British Film Institute, de Londres. O organismo queria produzir um documentário para a BBC cobrindo toda a trajetória do cinema, por ocasião da comemoração dos 100 anos da Sétima Arte, no ano seguinte. Mesmo envolvido com a produção de um filme desgastante (o longa-metragem “Cassino”), Scorsese não só aceitou o convite como foi mais longe: queria fazer uma série de três programas de 75 minutos sobre o tema. Daí surgiu o megadocumentário “Uma Viagem Pessoal Pelo Cinema Americano”.

A transcrição do texto dessa verdadeira aula de cinema para um livro foi lançada alguns meses mais tarde, em co-autoria com Michael Henry Wilson, roteirista e cineasta que auxiliou Scorsese na tarefa. A editora paulista Cosac Naify lança o volume no Brasil em uma edição luxuosa, em tamanho grande e acompanhada de 100 fotografias. É um daqueles volumes indispensáveis para estudantes de Cinema, aspirantes a cineastas e cinéfilos em geral.

Não poderia haver nome mais apropriado para conduzir o projeto. Além de ser conhecido pelo ardente entusiasmo sobre assuntos relacionados a cinema, Martin Scorsese possui uma das cinematecas particulares mais completas do mundo. Basta dizer que ele possui uma das cópias em melhor estado de preservação do brasileiro “deus e o Diabo na Terra do Sol”, filme de Glauber Rocha que considera um dos melhores produtos cinematográficos do século XX.

Para realizar o projeto, no entanto, Scorsese impôs algumas condições. O diretor não desejava ser mestre-de-cerimônia de luxo para mais uma monótona apresentação de filmes clássicos. Ele não deseja recontar a história do cinema, mas apresentar o século XX do cinema feito nos EUA de uma perspectiva subjetiva, particular. Em outras palavras, gostaria de colocar sua memória afetiva em ação e resgatar nomes apagados ou esquecidos, como Irving Lerner.

A abordagem de Scorsese é centrada na figura do diretor. Scorsese não faz firulas para dizer que compartilha da idéia da “teoria do autor” dos franceses: o cinema é uma arte, e o diretor é o artista responsável por ela. Por isso, ao apresentar as 125 obras que definiram o cinema norte-americano, na sua visão, Martin Scorsese imprime os filmes num contexto, explicitando a posição do diretor da obra dentro da indústria cinematográfica.

Scorsese reconhece a força dos estúdios. Ele relembra que, na primeira metade do século XX, as companhias cinematográficas produziam filmes como carros em uma fábrica, em que diretores e atores eram pouco mais que operários. A partir dessa constatação, então, ele divide os cineastas em três categorias: ilusionistas, contrabandistas e iconoclastas.

A divisão é simples. Os ilusionistas são os pioneiros, os mestres que desenvolveram a linguagem cinematográfica, ou seja, a arte de narrar uma história a partir de imagens em movimento, em que as palavras e os sons surgem apenas como apoio de luxo. São diretores que conseguiram cavar para si nichos de mercado específicos, criando um estilo pessoas e reconhecível D.W. Griffith, Alfred Hitchcock e Frank Capra estão nesse grupo.

Os contrabandistas, para Scorsese, são nomes que jamais tiveram a força necessária para conquistar um nicho de mercado, mas desenvolveram um estilo através de um caminho mais difícil: inserindo-se dentro de gêneros menores de filmes e tornando-se mestres nesses gêneros. Os diretores de filmes noir são lembrados dentro desse grupo, do qual o nome mais proeminente, para Scorsese, é Fritz Lang.

Já os iconoclastas são as “ovelhas negras”, diretores de gênio irascível que atacaram as estruturas dos estúdios, tornaram-se malditos, mas conseguiram impor algum tipo de evolução à arte do cinema através de teimosia e perseverança. Nenhum nome poderia ser mais apropriado a esta categoria do que Orson Welles.

Ao longo das 224 páginas do livro, Martin Scorsese intercala comentários com transcrições fiéis de cenas dos 125 filmes escolhidos. Não é A história do cinema americano, mas com certeza é UMA história do cinema americano, assim mesmo, com letra maiúscula. E se você tiver alguma chance de conferir o documentário original, cujo DVD não foi lançado no Brasil (é possível encontrá-lo em locadoras antigas, em VHS, com selo da distribuidora Sagres e o nome “Cem Anos de Cinema – Martin Scorsese”), vai entender melhor ainda porque Scorsese é considerado um dos últimos gênios em ação em Hollywood.

– Uma Viagem Pessoal Pelo Cinema Americano, de Martin Scorsese e Michael Henry Wilson
Cosac Naify, 224 páginas

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